As mutações que acometem as aves
As mutações que acometem as aves é o resultado do esforço coletivo de todos os usuários que inseriram e inserem valiosas informações que beneficiam não somente aos demais usuários, mas como toda a comunidade de observadores de aves, ornitológica e visitantes em geral. A todos os que dispensaram um pouco do seu tempo para compartilhar o seu conhecimento, muito obrigado.
Introdução
Como todo ser vivo as aves podem ser acometidas por diversas deformidades e alterações físicas, sobretudo cromáticas, que podem ser fruto de disfunções hormonais, alimentação inadequada ou deficiente, mas principalmente, de mutações genéticas, que provocam uma mudança na coloração das penas e, às vezes outras partes do corpo. Geralmente essas mutações atingem genes codificadores de algum pigmento, que deixa de ser produzido, ou passa a ser produzido em maior ou menor quantidade. No caso das aves, as diferenciações que ocorrem na plumagem podem tornar os indivíduos muito especiais e chamativos.
O indivíduo mutante na natureza
Noções básicas de cores e pigmentos
Cores
Existem dois tipos de cores básicas (pigmentos eutróficos verdadeiros) que podem ser observadas nas aves:
Cor Melânica: Melanina: Existem duas classes principais de melanina: eumelanina, que nas aves variam da cor negra ao cinza azulado; e feomelanina, que variam da cor castanho escuro ao bege claro. Se distribuem principalmente no eixo das penas e na periferia.
Cor Lipocrômica: Se apresenta em várias gradações de vermelho, amarelo ou simplesmente branca.
OBS: As colorações azul, verde e violeta são definidas de acordo com a luz que tem contato com as penas.
Pigmentos
Melanina: Produz “cor” em humanos e em aves (café, preto e variações) e confere resistência às penas das aves.
Caroteno: Também chamado de carotenóide, produz as cores laranja, amarelo e vermelho. Esse pigmento é adquirido dos alimentos que as aves consomem.
Psitacofulvina: Também conhecida como psitacina, é um pigmento presente nas penas dos Psittaciformes que também produz as cores amarela, laranja e vermelha.
Porfirina: Produz as cores verde, rosa e vermelho. É um grupo de pigmentos nitrogenados de estrutura química semelhante à hemoglobina.
Leucismo
Leucismo é uma deficiência de fundo genético que ocasiona alterações no corpo dos indivíduos acometidos. Leucismo é caracterizado pela perda completa do pigmento melanina (dos dois tipos eumelanina e feomelanina) nas ESTRUTURAS DE COBERTURA da pele (penas, pelos ou escamas) mas sem perda de melanina cutânea (olhos, mucosas, derme), deixando-os com a coloração branca. É causada pelo bloqueio da síntese de melanina, caracterizado por alelos mutantes, discrepância na expressão de genes impedindo a pigmentação das estruturas afetadas. No leucismo, a ave afetada perde tanto a melanina quanto os pigmentos carotenóides ou a psitacina.
Esta mutação pode ocorrer de forma total ou em somente partes do corpo do indivíduo. Espécimes irregularmente manchados são também denominados “arlequim” (arlequinismo).Se o indivíduo for completamente branco (com a derme pigmentada) é um Leucistico; sendo predominantemente branco mas com manchas de outra cor, é um leucistico com Arlequinismo normocronico; Se a cor dominante for a normal para a espécie mas há manchas leucisticas, classifica-se como normocromico com arlequinismo leucistico.
Mesmo indivíduos leucísticos completamente brancos podem ser diferenciados de indivíduos albinos: a cor do olho no primeiro é normal, enquanto no albino os olhos são vermelhos.
Os animais leucísticos não são mais sensíveis ao sol do que qualquer outro. Pelo contrário, são mesmo ligeiramente mais resistentes, dado que a cor branca possui um albedo elevado, protegendo mais do calor.
| Leucismo |
Carqueja-de-bico-manchado (Fulica armillata) leucística |
Sabiá-una (Turdus-flavipes) leucística |
Ariramba-de-cauda-ruiva (Galbula ruficauda) leucístico |
Albinismo
O Albinismo se caracteriza pela perda total dos pigmentos, tanto da melanina quanto dos carotenóides, podendo ocorrer em todo o corpo ou em partes dele. Diferentemente do leucismo, onde apenas as penas perdem a coloração, o indivíduo albino apresenta-se com coloração branca, bico e patas mais claros e os olhos, por não possuírem coloração, apresentam a cor vermelha dos vasos sanguíneos. Um indivíduo albino possui baixa resistência, principalmente ao sol, apresentando visão mais fraca e, às vezes, fotofobia.
| Albinismo |
Urubu-de-cabeça-preta (Coragyps atratus) albino |
Bacurau Tesoura (Hydropsalis torquata) albino |
Pardal (Passer domesticus) albino |
Tesoura-do-brejo (Gubernetes yetapa) albina |
Garça-vaqueira (Bubulcus ibis) albina |
Melanismo
O caso dos rapinantes
No caso de algumas espécies de rapinantes, os indivíduos melânicos são chamados de indivíduos morfo escuro, fase escura, ou o termo em inglês “dark morph”. Nesse caso, a mutação não surge ao acaso, sendo que ela já está estabelecida. Numa mesma ninhada é possível haver indivíduos melânicos e não-melânicos. Os rapinantes “morfo escuro” apresentam essa coloração pelo resto da vida. O melanismo nesse caso dificulta a identificação das aves em campo, já que essas possuem uma coloração diferente da original e podem ser confundidas com outras espécies.
Dentre as aves de rapina brasileiras já foram registradas as seguintes espécies com morfo escuro:
Cianismo
Esquizocromismo
Também conhecido como esquizocroísmo, é a ausência total ou parcial de melanina. No caso de ausência total, existem os carotenóides, pigmentos coloridos que vão do amarelo ao vermelho (por isso a cor dos que apresentam essa mutação) e também protegem do excesso de luz. Existem duas classificações de esquizocromismo:
Flavismo
Lutinismo
Outras mutações
As mutilações não incapacitantes
As mutilações não incapacitantes são aquelas causadas por fatores naturais (brigas, doenças adquiridas ou genéticas, etc.) ou geradas pela ação humana e que, embora tragam alguma limitação ao indivíduo e podem ser preponderantes para a sua sobrevivência, dentro das condições básicas lhe permitem buscar o alimento ou cortejar, fatores preponderantes à manutenção da espécie.
Mutilações não incapacitantes acidentes
Como todo ser vivo as aves estão sujeitas a sofrer acidentes que podem vir a causar algumas deformidades. As maiores ameaças para elas são Não raro nos deparamos com casos de aves atropeladas, mutiladas por linha de cerol e mesmo intencionalmente. Dificilmente uma ação da natureza virá a causar uma deformidade permanente em um indivíduo. Fatores naturais que podem vir a ter tais resultados são mudanças climáticas bruscas, queda repentina de uma árvore, cheia repentina de um rio, queimada por queda de raio ou outra causa natural, etc.
Brigas não são acidentes!
Podemos considerar as brigas entre as aves causadoras de mutilações mas não são elas, em si, acidentes. Brigas na natureza são fatores importantes utilizados pelos animais de modo instintivo para proteger o seu território, a prole ou outro indivíduo do bando; conquistar uma parceira ou o domínio sobre o grupo. Logo, as marcas deixadas por essas contendas são marcas da busca por sobrevivência e perpetuação da espécie, sempre aconteceram e por piores as consequências causadas fazem parte da muitas vezes incompreensível força da natureza.
Mutilações não incapacitantes causadas por fatores naturais
Galeria de fotos
Exemplos de aves leucísticas
Exemplos de aves albinas
Exemplos de aves lutinas
Exemplos de aves com flavismo
Exemplos de aves com cianismo
Exemplos de aves melânicas
| Casos de melanismo |
Pica-pau-do-campo (Colaptes campestris) |
Pica-pau-chocolate (Celeus elegans) |
Rolinha-fogo-apagou (Columbina squammata) |
Rolinha-fogo-apagou (Columbina squammata) |
Canário-da-terra-verdadeiro (Sicalis flaveola) macho |
Canário-da-terra-verdadeiro (Sicalis flaveola) fêmea |
Caneleiro-preto (Pachyramphus polychopterus |
Caneleiro-preto (Pachyramphus polychopterus) melânico |
Príncipe (Pyrocephalus rubinus) melânico |
(Myiarchus sp.) melânico |
(Formicivora serrana) melânico |
(Knipolegus cyanirostris) melânico |
Cardeal-do-nordeste (Paroaria dominicana) melânico |
(Hemithraupis sp.) melânico |
(Spinus magellanicus) melânico | |
Rapinantes melânicos (morfo escuro)
Referências